Arara Azul Grande!

Arara Azul Grande!
Hyacinth Macaw/ Anodorhynchus hyacinthinus

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Um pouco mais sobre a minha história por Juliana Albrecht!!!!

                      Íntimo das aves


                                                  
                                                 Texto por Juliana Albrecht *

Num instante, tudo para. Nada mais preocupa. As memórias não existem. Os pensamentos somem e a mente parece esvaziar-se. E toda a atenção e emoção se voltam para um único lugar. Para o cume de uma árvore. É nela que, confortavelmente instalado, ele espera. O tronco ereto e a cabeça erguida lhe conferem uma postura elegante, majestosa e imponente que, não por acaso, rendeu a ele o nome de Belo.

Seus olhos fitam o horizonte, porém, com seu largo campo de visão, ele pode enxergar tudo o que está à sua volta. E ao seu redor tudo é tão vasto e amplo que parece não ter fim. Ele é perseverante e paciente, como todo bom pescador. E demonstra não se incomodar com a nossa presença. Em momento algum dá sinal de constrangimento, pelo contrário, sem perder a pose fica a postos para as câmeras fotográficas que clicam a todo instante.

Talvez ele esteja familiarizado com a presença do bicho-homem. Ou talvez ele esteja tão determinado a alcançar seu objetivo que nada nem ninguém conseguirá tirar sua concentração. Assim como nada nem ninguém tira a atenção de quem o observa. Sua presença enche os olhos e faz um convite à meditação e à contemplação.

Determinado e silencioso, ele aguarda pelo movimento que poderá denunciar um peixe ou um caramujo próximo à superfície do lago, sobre o qual está empoleirado.

A plumagem de seu corpo, num tom marrom-avermelhado, brilha com a incidência do sol da manhã, o bico é preto e pequeno e bastante curvado para baixo, os olhos, pretos e vivos, são minúsculos e parecem incapazes de enxergar com tanta precisão. Entretanto, sua visão é oito vezes mais desenvolvida do que a do ser humano. Sua cabeça tem uma plumagem branca e, por essa razão, algumas pessoas o chamam de velho, mesmo sendo ele um jovem.

Num instante, de modo rápido e inesperado, ele voa. E suas asas impressionantes o levam com grande velocidade em direção ao lago. Com os pés, providos de garras, ele toca a água e retira dela seu alimento. Em seguida, volta ao galho no qual estava absorto e devora o peixe capturado, com voracidade, dando à sua plateia um espetáculo inesquecível.

Contemplar o Gavião-belo ou Gavião-velho em seu habitat natural, cercado de tudo o que precisa para ser livre e feliz, é emocionante. Esse rapazinho tem sorte. Ele e os demais que vivem aqui no Refúgio. Quantos e quantos pássaros presos em gaiolas, alimentando-se à base de alpiste e recebendo apenas luz artificial não gostariam de estar num lugar que respeita a natureza, a liberdade e a vida.
No safári fotográfico


Com um toque suave na cabine, Vitinho, o guia de nosso safári fotográfico pela natureza selvagem do Pantanal sul-matogrossense, indica ao motorista que ele deve parar o caminhão. Na carroceria, adaptada com bancos confortáveis de couro e cobertura de lona, os turistas entreolham-se num misto de apreensão e curiosidade.

Eles sabem que um safári, assim como aqueles que acontecem na África, é realizado em várias paradas, sempre que um animal cruza o caminho ou uma planta interessante desponta na paisagem, para que eles possam observar, contemplar e, claro, fotografar. Contudo, a apreensão aqui tem uma razão de ser: ninguém viu nada que justificasse a solicitação de Vitinho.

- Por que nós paramos aqui? – pergunta uma turista ansiosa.
- O que será que ele viu? – questiona outra.

Vitinho leva o dedo indicador da mão direita à boca, como naqueles cartazes de hospital que pedem respeito aos visitantes, indicando que devemos nos manter em silêncio. O grupo colabora e ninguém dá um pio. Cuidadosamente, ele abre uma pequena bolsa e retira dela um binóculo. Depois, vai até a parte traseira da carroceria e com o auxílio do instrumento tenta encontrar o melhor ângulo de visão. Vitinho movimenta o corpo de um lado para o outro, para baixo e para cima, até que encontra o que procurava:

- Tem um pica-pau nessa árvore. Vocês não conseguem vê-lo por causa da folhagem, mas eu vou chamá-lo. – diz com autoconfiança.

Sem entender ao certo como ele pretende atrair o pássaro, os turistas se mantém sentados e calados, esperando que um milagre aconteça.

Então, nosso guia de campo, especializado em birdwatching (observação de aves), vai novamente até a bolsa, que por guardar tantas coisas só pode pertencer à Mary Poppins, e tira dela um iPod. No menu do aparelho, ele busca o som do pica-pau. Quando o encontra, ele acopla um pequeno alto-falante ao equipamento e reproduz o som do pássaro, em alto e bom som. Uma vez, duas vezes e na terceira vez eis que o milagre acontece. O animal responde ao chamado e surge, como num passe de mágica, diante de nossos olhos. E não é que até pica-pau gosta de iPod? Aqui cabe uma risada igual ao do desenho animado: hehehe...hehehehehe.

Sem esconder a surpresa e o fascínio, os turistas se levantam de seus assentos e aproximam-se da árvore que acolhe o animal. Enfileirados no mesmo lado da carroceria, com as cabeças inclinadas para cima, em direção ao topo da árvore, eles dão a impressão de que estão a venerar um símbolo sagrado.

Mas quem ama a natureza sabe, tudo nela é sagrado: a terra, que se esfacela com as rodas dos zebrões, que transportam os hóspedes em seus safáris; as folhas e árvores de diversos tipos, que dançam ao som do vento; as inúmeras espécies de pássaros que pintam os céus, os lagos e corixos com sua plumagem colorida e exuberante, dando à paisagem uma aura artística e poética que nem os grandes mestres da pintura e literatura são capazes de reproduzir; os répteis e mamíferos, que caminham elegantemente, solitários ou aos pares e, finalmente, os homens, que entram em total sintonia e equilíbrio com o meio-ambiente, tornando-se ainda mais conscientes de sua união com o todo.  

Enquanto os turistas observam, reverenciam e fotografam a ave, Vitinho pega um Guia de Pássaros e busca no livro a ilustração do animal, para que possa mostrar aos hóspedes as diversas espécies de pica-pau e qual é exatamente aquela que está diante deles:

- Olha só como o topete vermelho contrasta com o corpo todo preto dele. E se vocês olharem com o binóculo vão ver que ele tem uma linha branca que vai do bico ao pescoço. Eles vivem sozinhos ou em casais. E possuem uma risada alta para marcar território ou comunicar-se com o par. Além desse som, eles também fazem aquele barulho peculiar quando bicam a madeira. – explica paciente e didaticamente o nosso guia, como se, apesar de profundo conhecedor do pássaro, o estivesse vendo pela primeira vez, dada sua empolgação e encantamento.

Ao fim da explicação, o bichinho bate asas e voa para longe, como se tivesse combinado com o Vitinho, antecipadamente, aquela aparição pública.
Mais um toquezinho na cabine do zebrão e o motorista entende que pode seguir com o safári. Enquanto o caminhão segue pela trilha, cercada por palmeiras carandá, ipês, aroeiras e outras vegetações típicas do pantanal e do cerrado, fico a admirar a figura de nosso anfitrião. Vitinho é um profundo conhecedor da flora e fauna locais e transmite seus conhecimentos com tanta desenvoltura, satisfação e alegria que fico enternecida. Existe uma liberdade no jeito de ser dele, uma aura pacífica que contagia.

Enquanto o contemplo, assim como contemplava o Gavião-belo, obstinado e sereno durante sua pescaria, me pergunto se essa liberdade dele vem do amor que demonstra ter pelo ofício ou se do vasto conhecimento que acumulou ao longo do tempo sobre a natureza que o envolve. Essas asas que o permitem voar livremente para além de horários, compromissos e rotina vem da união da alegria de se fazer o que gosta com a segurança de se conhecer aquilo que transmite? É no céu da autorrealização que se encontra a liberdade? – são as perguntas que me faço durante a atividade que criei: a observação de um birdwatcher.

Um grande ninho
...Aqui, quem destranca o portão do amanhecer é o aranquã.
O nosso amanhecer lateja de pássaros.
Eu quisera dar em palavras o tom que em mim o Pantanal ressoa...
Eu quisera usar a competência das palavras
para pintar em imagens o meu ver...
Manoel de Barros

Considerado a maior planície alagável do mundo, o Pantanal espalha-se por três países: Brasil, Bolívia e Paraguai. O Brasil possui 140 mil Km², o que representa dois terços da área total desse bioma, que vive em constante mutação.

O calendário pantaneiro é um mosaico, composto por quatro estações: águas (dezembro a março), vazante (abril a junho), seca (julho a outubro) e enchente (novembro e dezembro). A cada mudança de estação, muda-se o cenário, mas ele jamais perde sua exuberância e sua condição de zoológico a céu aberto

No período das águas, as chuvas são intensas e parte do Pantanal fica submersa. A vegetação ganha um verde vivo, de aspecto renovado e revigorante. Em abril, quando as chuvas param e o nível das águas começa a baixar, lagoas e poças são formadas e, aprisionando milhares de peixes, servem de receptáculo às aves aquáticas, como tuiuiús, garças e colhereiros.

Na estação das secas, os campos oferecem vasta pastagem aos mamíferos que buscam alimento. Em agosto, os ipês florescem e alegram a paisagem com suas flores coloridas. Os pássaros entram em reprodução e seu canto compõe a trilha sonora da vida selvagem que pulsa incessantemente.

O Pantanal é um dos habitats mais povoados de animais selvagens do mundo e um dos melhores lugares para a observação de bichos, principalmente pássaros. Em todo o Pantanal e regiões vizinhas, registram-se cerca de 650 espécies de aves. A vastidão da região e sua riqueza fazem dela um bom ambiente para se viver, e favorece a prática do turismo sustentável.


 

Sem uniforme
Até aquela ocasião, eu nunca tinha ouvido dizer de se parar apreciando, por prazer de enfeite, a vida mera deles  pássaros, em seu começar e descomeçar dos voos e pousação...João Guimarães Rosa, “Grande Sertão: Veredas”

Vitinho chega impecavelmente uniformizado para o safári: bermuda marrom na altura dos joelhos, camiseta branca, que leva estampado no peito o logo do Refúgio Ecológico Caiman, um hotel de luxo localizado no coração do Pantanal Sul, e atrás a inscrição ‘guide’, seguida da bandeira do Brasil, meias grossas e botas de trekking. Numa das mãos ele segura uma pequena bolsa, na qual carrega binóculo, guia de aves, iPod e uma maleta de primeiros-socorros. E na outra mão, ele leva um grande galão de água fresca para dar de beber aos hóspedes.

Victor do Nascimento, o Vírgilio de nossa aventura, tem 38 anos, é um homem alto, deve ter 1,90m de altura, corpulento, tem a pele morena clara, cabelos e olhos pretos. Conversa de modo pausado, calmo e vez por outra esboça sorrisos generosos e espontâneos, que iluminam o rosto todo. Não gesticula muito e tem um jeito sereno e comedido, que talvez seja resultado da vivência num santuário ecológico.

Vitinho nasceu e cresceu na Estância Miranda, uma fazenda de gado de corte fundada em 1910 por investidores ingleses, localizada no município de Miranda, no Estado do Mato Grosso do Sul. Em 1950, essa fazenda foi vendida para investidores brasileiros que mantiveram as atividades originais até 1985, quando, então, foi finalmente dividida entre seus vários proprietários, originando, assim, várias outras fazendas, entre elas a Caiman, onde foi instalado o Refúgio Ecológico – um complexo ecoturístico que reúne três pousadas: Sede, Baiazinha e Cordilheira.
Ele é um filho da terra, um autêntico pantaneiro. E só costuma deixar o local de trabalho, onde também mora (na antiga pousada Piúva, hoje transformada na casa dos guias), quando está em férias ou quando usa suas folgas para visitar os pais e irmãos que moram em Miranda. De moto, ele faz o percurso em pouco mais de uma hora.

Quando se apresenta ao grupo do passeio e começa a fornecer as primeiras informações sobre o hotel e sobre as atrações que o Pantanal oferece, ele demonstra o quanto respeita as pessoas, a natureza e a profissão que abraçou. Vitinho considera o intercâmbio cultural que mantém com os hóspedes uma das maiores vantagens de seu ofício. Às vezes, ele conhece os nomes de um mesmo pássaro em inglês, francês e alemão, porque sabe conversar, mas, principalmente, sabe ouvir e observar:

- Eu costumo dizer à minha namorada (também guia do Refúgio, com quem namora há cinco anos) que se eu não trabalhasse como guia, eu ia gostar de trabalhar como psicólogo, porque eu gosto de observar o comportamento das pessoas. E da mesma forma que comportamento de passarinho é diferente um do outro, as pessoas também são assim – explica.

O caminhão que leva os hóspedes para o safári encosta em frente à Pousada Cordilheira e Vitinho puxa uma escada lateral, para que eles possam subir e se acomodar na carroceria. Quando todos embarcam, com suas câmeras fotográficas e binóculos em punho, ele sinaliza ao motorista que o passeio pode sair. A primeira parada acontece assim que avistamos um tuiuiú, a ave símbolo do Pantanal. Ao mesmo tempo em que monta seu telescópio sobre o tripé, no meio da carroceria, ele nos passa algumas informações sobre o animal. Ao observar Vitinho ‘na ativa’ é comum pensar que ele já nasceu sabendo de tudo ou que o fato de ter nascido aqui tornou as coisas mais fáceis, porém, ele conta que jamais pensou em ser guia e que nem sabia que a profissão birdwatching existia. Ele já seguia os passos do pai, tratorista e caminhoneiro da Estância Miranda, quando resolveu mudar seu destino:

 Durante cinco anos eu trabalhei como tratorista e caminhoneiro na Estância. Eu levava sal pro gado, pegava as pessoas que moravam no Retiro, principalmente na época da cheia, porque só trator chegava. E trabalhava na construção das estradas, jogando cascalho sobre elas. Até que num belo dia, um amigo, que trabalhava na Caiman, me chamou pra fazer um passeio de canoa com os hóspedes. E ao final desse passeio ele me convidou pra trabalhar no hotel. E eu disse: “mas como assim? Será que eu tenho jeito pra isso?”. E ele respondeu: “claro, eles gostaram de você”.

Ele aceitou o desafio e, há dezesseis anos, passou a integrar o quadro de funcionários do Refúgio Caiman. Num primeiro momento, só saía para passeio acompanhado de um guia mais antigo, para que pudesse apreender todas as informações necessárias para transmitir aos turistas. Depois, quando começaram a reparar que seu interesse em aprender e seu gosto pelo ofício faziam dele um guia nato, exemplar, o transferiram, definitivamente, para o posto.

Com o tempo, a Caiman passou a receber grupos estrangeiros especializados em birdwatching, os passarinheiros. E Vitinho começou a aprender com eles. Na época, ele não tinha um interesse específico em aves, mas começou a sair com esses birdwatchers porque tinha paciência para acompanhá-los no campo, na busca e na observação dos pássaros, e porque eles saiam mais cedo, por volta das cinco, cinco e meia da manhã. E costumavam voltar mais tarde para o almoço:

 E no começo, eu não vou mentir, você fica pensando: “nossa, é muito passarinho. Eu não vou aprender. É muito bicho”. Porque é diferente a relação entre morar e trabalhar aqui. Você pode morar aqui a sua vida inteira, prestar atenção em algumas coisas, mas nem tudo te chama atenção. Porque é muito natural, muito comum pra você. Então, eu saia para aprender. Eu ficava admirado: “nossa, como esse cara viu isso? Escutou aquilo?” Não é mágica, ninguém faz aparecer do nada, isso é coisa que você aprende com o treino do olhar – afirma humildemente.

Após um bom tempo de parada, com muitos cliques e informações sobre a ave, Vitinho indica aos turistas que é hora de seguir com o passeio, pois ainda há muito para se ver. Só de pássaros, estima-se que existam 359 espécies na Caiman. E nosso guia é um sujeito especializado em reconhecê-las e bem equipado para visualizá-las e atraí-las. Foi a partir dos contatos que fez com os grupos estrangeiros que ele começou a ‘passarinhar’. E como era difícil encontrar Guias de Aves no Brasil, um dos birdwatchers, que resolveu apostar em seu potencial, deu a ele um binóculo e um guia, que ele usa até hoje, não o mesmo livro, mas a mesma edição:

- Naquela época, em 1995, e morando no meio do Pantanal, era mais difícil ainda.  Então, ele me deu o material e disse: “você enxerga muito bem, mas precisa aprender mais. Você já encontra, agora precisa saber identificar eles”. Porque eu falava: “tem um pica-pau ali, mas eu não sabia qual”. Assim eu comecei a ver os bichos. E quando eu conseguia identificar, puxa, mas eu ficava tão feliz. Sempre que eu saía eu aprendia, mas ainda tinha muito o que aprender.
Como parte do processo de investimento na carreira que definiu para sua vida, Vitinho começou a comprar seu material de trabalho, conforme ganhava dinheiro. “O ideal é trabalhar com as próprias ferramentas, assim eu também posso usar nos meus dias de folga”, diz, com um sorriso estampado no rosto. É que para os grupos que ele atende é diferente o fato de se ter um telescópio ou não, de saber usá-lo ou não. Pois, quando o hóspede percebe o preparo e o comprometimento do guia as caixinhas costumam ser mais nobres. A diferença entre se ver um bicho perto ou ao longe denuncia a diferença entre se prestar um bom serviço ou não. Por esse motivo, durante muito tempo, ele reservou todas as suas caixinhas para um telescópio de ponta, um novo binóculo e um iPod, no qual só armazena sons de aves.

O caminhão faz nova parada. Uma família de macacos-prego brinca de pular de galho em galho. Debaixo de um calor intenso, cujo sol é tão quente que parece haver um para cada pessoa, os turistas não demonstram nenhum sinal de cansaço e olham hipnotizados para o cume da árvore. Vitinho não consegue disfarçar a alegria que sente com a emoção de seu grupo, formado apenas por brasileiros. 

Mas seu tempo de carreira e as atribuições que lhe seriam exigidas caso seguisse a psicologia, permitem a ele fazer um comparativo entre os turistas nacionais e os estrangeiros. Vitinho conta que os estrangeiros são mais interessados em contemplar a natureza e, por essa razão, entendem com mais facilidade que manter-se em silêncio é imprescindível para se ouvir e ver o que rompe das matas. Já os brasileiros estão tão acostumados a falar em voz alta que não se dão conta de que os animais notam facilmente a presença de novos ruídos no ambiente e afastam-se.

Ele diz que os birdwatchers levam sua atividade tão a sério que costumam chegar ao Brasil com a lista das aves que desejam ver junto de sua bagagem. Como Vitinho conhece o Refúgio como a palma da mão, ele organiza essa lista e os leva aos lugares exatos onde as espécies listadas costumam ficar, sendo considerado, aos olhos dos turistas, como um grande mágico. Aquele que faz aparecer.  

Atualmente, ele é considerado um dos melhores observadores de aves da América do Sul. E sua presença no Refúgio Ecológico Caiman tornou-se uma atração à parte. Passarinheiros americanos, franceses e alemães pedem, em suas reservas, para que ele os acompanhe em suas incursões pela mata, dada a sua capacidade de ver, ouvir, atrair e reconhecer os pássaros com habilidade, como se fosse um membro da comunidade ou uma espécie de mestre dos pássaros.
Com seu esforço particular, sua curiosidade e sua extraordinária vontade de superar os próprios limites, Vitinho foi a campo, pesquisou, estudou, observou (e muito) o comportamento dos bichos, buscou e investiu nos materiais necessários para o seu aperfeiçoamento e conquistou, assim, sua capacidade de voar. E o que foi aqui conjugado no pretérito, também se conjuga no presente. Porque seu amor pela profissão, pela natureza, pelos pássaros, pela vida e pelas pessoas é o que lhe move.   

- Gostar é importante. Se você gosta você vai atrás. Eu quando saio para passeio, esqueço um pouco do tempo. Eu não fico prestando atenção no relógio. Às vezes, você tem um horário livre e usa ele pra dormir. Eu não. Eu uso pra estar no mato. Conhecendo.

E o safári segue para avistar ainda arara-azul, colhereiro, martim-pescador, cardeal, cafezinho, japuíra, sabiá-laranjeira, bem-te-vi, tucano, seriema, veado campeiro, quati, queixada e jacarés.

Ave migratória
Armas, num galho de árvore, o alçapão
E, em breve, uma avezinha descuidada
Batendo as asas, cai na escuridão...
...Por que me prendes? Solta-me covarde!
Deus me deu por gaiola a imensidade:
Não me roubes a minha liberdade,
Quero voar! Voar!...
Olavo Bilac, “O Pássaro Cativo”

Na aconchegante e colorida sala da Pousada Cordilheira, o almoço é servido. Na bancada, um típico banquete pantaneiro: churrasco, macarrão tropeiro, mandioca e milho cozidos, arroz carreteiro e sopa paraguaia (torta de milho com queijo e cebola). Faço meu prato e sento-me ao lado de Vitinho, que já almoça com outros hóspedes.

Em dias de trabalho, ele faz todas as refeições com os turistas e fica disponível para atendê-los em suas solicitações ou para levar um bom dedo de prosa. Nos dias de descanso ou sem passeios no hotel, ele almoça no refeitório dos funcionários e desenvolve outras atividades, como selar os cavalos, lavar os zebrões e fazer a manutenção das trilhas.  Mas o programa de hoje é prosear e, após o almoço, fazer um passeio de barco voadeira pelo rio Aquidauana.
Viagens é o tema que acompanha nossas generosas e saborosas garfadas. Entre uma mastigada e outra, nosso guia conta suas experiências migratórias.  Em 2007, ele conheceu vários estados americanos a convite de um birdwatcher que conheceu na Caiman. Com um inglês de nível básico, que aprendeu com os turistas, ele visitou vários parques ecológicos. Aliás, todas as suas viagens, como as que fez para a Amazônia e Bolívia, têm como foco a contemplação da natureza.   

Irresistivelmente, pergunto a ele, que observa tantas asas a voarem no céu, como encarou sua primeira viagem de avião. E o que ouço, inicialmente, é uma resposta sem palavras. Vitinho curva-se para frente, leva o cotovelo do braço direito à mesa e faz dele um aparador para o seu rosto. É quando vejo seus olhos buscarem o horizonte e ficarem distantes, como se decolassem, enquanto ele dá um meio sorriso e respira fundo. Após muitos segundos, ele aterrissa de volta à nossa conversa:

- Eu nunca senti medo de voar, mas na primeira viagem longa que eu fiz eu me senti angustiado. É diferente quando se está num carro ou num ônibus, que você pode descer, caminhar, pegar um pouco de ar e tirar aquela sensação de aperto.

Ao final do almoço, quando os preparativos para a saída ao passeio começam, o Pantanal nos prega uma peça e muda completamente a paisagem. O dia ensolarado cede o céu onde brilha para a chuva que começa a cair torrencialmente, como uma grande benção. E, ao contrário do que se possa imaginar, ninguém se chateia com o cancelamento da programação. Aqui, quando as águas caem, com força e, ao mesmo tempo, delicadeza, levando alegria e vitalidade à terra, à vegetação e aos animais, tornam-se uma atração imperdível e inesquecível.


 

No safári fotográfico 2


Quando a tempestade transforma-se numa garoa fina, Vitinho vai até o quarto que tem reservado a ele, dentro da Pousada, e retorna agasalhado. É quando, então, convida a todos para um passeio: “agora que as águas encheram os lagos e formaram poças, vocês vão contemplar um novo Pantanal. Muitos bichos vão aparecer em busca de alimento e até a vegetação vai estar diferente. E talvez a gente consiga ver o pôr-do-sol”, diz, de modo que ninguém consegue resistir ao convite.

O grupo, que agora está mais familiarizado, sai com grande empolgação. O som da garoa fina caindo sobre a lona do zebrão nos acompanha durante todo o percurso ao melhor local para a contemplação do pôr-do-sol. O céu parece brincar com as diversas tonalidades de rosa e vermelho e transforma-se numa grande tela, assinada pelas mãos de Deus. O tom vermelho que sai por detrás das sombras das árvores, ao longe, dá a impressão, a olhos desavisados, de que é fogo a queimar na floresta.

De repente, um som chama a atenção. Um bando de pássaros, voando em formação, passa diante de nossos olhos. Em segundos, um outro bando cruza o céu. E outro. E outro. E outro. Todos eles fazem um grande barulho, como se conversassem entre si ou cantassem de alegria. Uma incrível variedade de pássaros, todos a voarem em formação, risca os céus e nos deixa sem saber ao certo para onde olhar. Eles surgem de toda a parte, mas seguem em direção a um local específico: “eles estão a caminho dos dormitórios, que são os cumes daquelas árvores ali”, explica o nosso guia. À distância, as árvores parecem cobertas por neve, mas na verdade são os pássaros, que já encontraram seu cantinho para descansar, que as tingem de branco.

Durante muitos minutos, todos ficam em absoluto silêncio, a observar a mágica arquitetada pela natureza. Vitinho entende que esse é um momento precioso e único e se mantém no mesmo estado em que seu grupo encontra-se: de total êxtase e encantamento. Observar um pássaro a voar delicadamente no céu é experimentar um sentimento de liberdade que vai além da compreensão do que ela verdadeiramente representa.


* Jornalista com pós-graduação em Jornalismo Literário pela Academia Brasileira e Jornalismo Literário (www.abjl.org.br), turma São Paulo 2008.


Gostaria de aproveitar e agradecer a Juliana por contar a minha história, Muito Obrigado!!!





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